Cambinda Estrela: o maracatu de Roberto de Angola e Mário Miranda

Zona norte da cidade do Recife, cair da tarde de um dia de semana. Posso ver a enorme cabeleira alaranjada do sol se pondo lentamente, em meio aos prédios, enquanto me dirijo para a Avenida Norte, em companhia de Erasmo. Vamos ao Vasco da Gama, conhecer Roberto de Angola, que neste ano vai desfilar com o Cambinda Estrela. Logo que começamos a conversar perguntei: porque o Cambinda? Fiquei então sabendo que já tinha desfilado neste maracatu quando era muito jovem, tinha cerca de 15, 16 anos. Nessa época, lembra, o maracatu era de Mário Miranda. E recorda com uma certa nostalgia estampada no rosto, que fugia de casa depois que todos dormiam, para brincar o carnaval. Mário Miranda o ajudava a se paramentar, a vestir as bonitas fantasias de baiana, com as quais o famoso pai de santo ficou conhecido. Roberto fala de Mário Miranda com muito respeito e admiração, e afirma que todos em Casa Amarela o conheciam.
Maria Aparecida, como era conhecido, era mais do que um carnavalesco, “era o próprio carnaval”. Todos na avenida esperavam o maracatu de Mário Miranda passar, e para corresponder, ele caprichava nas fantasias, saia sempre com cestas enormes na cabeça. E dizia: eu sou assim, aparecida. “Ele realmente era feiticeiro” afirma Roberto de Angola.
Esperamos que este feitiço que o Cambinda também têm agregue não só Roberto de Angola mas muito mais gente do Vasco da Gama. Roberto lembra de uma toada composta por Mário:

Passei três meses internado

Disseram que foi catimbó

Mas eu sou do Moçambique

E o meu veneno é um só.

Foi comida, foi comida

que fez mal a Aparecida

Afinal como lembrou Roberto, Mário Miranda era excelente compositor de toadas, muitas das quais ainda hoje são cantadas nos terreiros. Depois de muito insistir cantou com uma voz muito bonita uma especial que Mário compôs para sua Oxum:

Como é bonito

A noite de lua cheia

O sol saindo

Eu aplaudindo

A natureza

Ora eu, eu

Mamãe Oxum

Ora eu eu

Oxum Maré

Ora eu eu

Mamãe Oxum

Como é bonita

a natureza.

O sol já tinha se posto, a noite caído, e foi muito bom ouvir as histórias de Roberto, e principalmente de saber que neste pequeno momento, uma comunhão misteriosa ocorreu, como se as memórias de Roberto pudessem nos trazer outros momentos do passado, em que Mário Miranda fazia do Cambinda Estrela um dos preferidos do povo na avenida.

Um pouco mais chegou o batuque e a festa começou. Bem vindo novamente, Roberto de Angola.

 

Na festa de ontem, que foi muito animada, Ivaldo compôs mais algumas toadas… talvez tomado pelo mesmo espírito indômito de Mário Miranda. Talvez os motivos sejam distintos, mas afinal, Mário Miranda era conhecido por não levar desaforo pra casa!

Sou do asfalto

sou da lama

gente rica não me engana

Cambinda tem orgulho

de ser do Vasco da Gama!


Postado em dezembro de 2006

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Sobre Isabel Guillen

Professora do Departamento de História da UFPE
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